Oliveira do Bairro: Cidade e Futuro

Reflexões sobre o "estado da nação e da arte" oliveirenses

domingo, setembro 12, 2004

A CIDADE QUE TEMOS E A CIDADE QUE QUEREMOS [1]*

A PROPÓSITO DOS ARTIGOS DE GRANGEIA SEABRA E PIMENTA DE OLIVEIRA (Jornal da Bairrada, 1751, Oliveira do Bairro, 4.8.2004, pp. 12 e 22-23).

Confesso que aguardava a oportunidade de abordar aquilo que tem constituído sério objecto das minhas preocupações e que decerto inquietará muitos dos meus concidadãos: a cidade que temos e a cidade a que aspiramos.
Nesse sentido, apraz-me registar a importância das ideias expressas nos artigos de Grangeia Seabra e Pimenta de Oliveira, que desejo possam ser catalisadoras de um debate verdadeiramente alargado que contribua para formular com alguma solidez as bases do futuro da Cidade de Oliveira do Bairro.
Uma cidade para os cidadãos e Cantos e Recantos da Cidade têm como denominador comum a Cidade de Oliveira do Bairro, divergindo apenas na forma e no estilo. O primeiro é de pendor mais teórico. Cede à “tentação globalizante” de tudo querer dizer mas apresenta-nos de forma assinalável uma complexa teia de ideias, constituindo uma leitura menos fácil. Já o segundo, comparativamente mais simplista e próximo do vernáculo, apresenta um diagnóstico parcelar de alguns dos problemas de que a nossa cidade padece. Num tom de resignação, concentra-se menos no apontamento de possíveis caminhos ou soluções a seguir.
Aos dois, porém, subjazem problemas/interrogações que considero inteligentes e para os quais urge ensaiar respostas.
Directa ou indirectamente ambos evocam questões que se incluem nas categorias de infra-estrutura e de super-estrutura, sendo que a última se pode traduzir na mentalidade, onde ganha relevo a necessidade de uma cultura urbana que Grangeia Seabra e Pimenta de Oliveira insinuam, e bem, não existir, e que do meu ponto de vista tem consequências bem visíveis ao nível da estética da cidade (qualificação urbana e qualidade de vida) e da ética de todos e cada um dos cidadãos (a forma como se estabelece a convivência).
Aqui reside de forma flagrante o cerne da questão.
Vejamos! O que é a cidade senão um organismo vivo, o conjunto das pessoas que a habitam e utilizam, que lhe incutem vida por intermédio das suas acções, do seu profissionalismo, expectativas e ambições, que a estrangulam quando produzem aberrações urbanísticas, ou a abandonam tanto à crítica fácil e inconsequente como por simples omissão.
A cidade é feita de pessoas, e é devido às suas capacidades enquanto massa crítica que se torna ou não numa cidade para as pessoas.
Tudo o que fazemos social ou individualmente tem boas ou más repercussões.
Pimenta de Oliveira, a propósito da comemoração do primeiro aniversário da elevação de Oliveira do Bairro a cidade, aludiu às pessoas que há um ano encolheram os ombros e que não vão mudar de atitude, porque não se sentem citadinos, mas antes cidadãos de uma vila acanhada, sem horizontes. Não seria já a vila apenas o reflexo destas pessoas?
Continuará esta cidade a ser o reflexo destas pessoas?
O espelho do amadorismo provinciano com que se multiplicam os cafés com balcões de zinco, mesas de fórmica, onde cadeiras e mesas são arrastadas até o ruído se tornar ensurdecedor, ou onde se é atendido entre um ruidoso chinelar enquanto os donos ostentam um belo palito entre dentes, e as lojas onde o design não existe e onde as montras convidam a não entrar? O mesmo provincianismo que lhes permite estacionar o automóvel em pleno entroncamento, ignorar o semáforo vermelho, levar o cão à caixa de areia da Urbanização “O Adro” para aí depositar os seus dejectos, e leva alguns funcionários da câmara municipal a confeccionar um saboroso bolo durante o horário de trabalho?
A Câmara Municipal de Oliveira do Bairro terá ainda muito a fazer. É um facto inquestionável. Como o é relativamente aos putativos intelectuais das praças vermelhas, artistas, empresários, engenheiros, empreiteiros, funcionários públicos, urbanistas, recepcionistas ou técnicos de reposição.
Todos nós temos o imperativo ético de evoluir, optimizar recursos, refinar comportamentos e agir. Não segundo a visão tradicional, restritiva e negativista da ética enquanto conjunto de proibições, normas e deveres. Antes como a definiu um dos grandes pensadores espanhóis contemporâneos, Jose Antonio Marina: o conjunto das soluções mais inteligentes que nos ocorreram para resolver dois tipos de problemas: os que afectam a felicidade pessoal e os problemas que afectam a dignidade da convivência. E se formos inteligentes seremos capazes de levar essas soluções à prática.
E agora? Aqueles que perguntam qual cidade? deverão começar por responder: aquela que eu próprio ajudei/ajudo a construir!
E agora? Como cantam os Xutos & Pontapés, ao trabalho, ao trabalho…
* Jornal da Bairrada (11.8.2004)