Oliveira do Bairro: Cidade e Futuro

Reflexões sobre o "estado da nação e da arte" oliveirenses

segunda-feira, setembro 13, 2004

A CIDADE QUE TEMOS E A CIDADE QUE QUEREMOS [2]*


Ecoam ainda na minha modesta caixa de pensamentos os soundbytes que traduzem o apelo ao trabalho cantado pelos Xutos & Pontapés, com que havia deixado o leitor na semana transacta.
O refrão, repto aos cidadãos oliveirenses, era o culminar de um desafio à tomada de consciência da importância de cada um na construção da cidade que queremos. Porque na base da mudança de mentalidade e da formação de uma cultura urbana de que a cidade contemporânea carece está também o exercício crítico individual. Perguntemo-nos pois, todos nós, putativos intelectuais das praças vermelhas, artistas, empresários, engenheiros, empreiteiros, funcionários públicos, urbanistas, recepcionistas ou técnicos de reposição, à luz da ética positiva enunciada por Jose Antonio Marina, qual a solução mais inteligente mediante a qual posso agir/ajudar a construir a Cidade de Oliveira do Bairro de forma a poder banhar-me nas águas da felicidade pessoal e da dignidade da convivência?
Na cidade com futuro, de pessoas e para as pessoas, não restem dúvidas: é sobre elas que recai o ónus da sua edificação, responsabilidades que podem e devem ser assacadas na medida em que interferem com o bem-comum e se podem revelar cruciais.
Afirmada a necessidade de uma acção individual pautada pela dimensão ética, vejamos como a sua não observância/ignorância se tem repercutido na estética da cidade, desqualificando-a ao ponto de multiplicar monstros e aberrações como cogumelos à chuva.
Pimenta de Oliveira (Jornal da Bairrada, 1751, Oliveira do Bairro, 4.8.2004, p. 22-23) fez referência directa a um deles, talvez o mais esclarecedor e que se situa atrás/sobre/junto/ao lado (!?) do ditoso Café Zip-Zip.
Classificaria este imóvel (!?) apenas como a bandeira mais emblemática da autêntica selvajaria arquitectónica de que se faz actualmente a Cidade de Oliveira do Bairro, onde a mediocridade do parque habitacional é tão clamorosa quanto confrangedora.
A qualidade de construção é, afirmo-o sem prurido porque com conhecimento de causa, globalmente péssima. A escolha dos materiais não prima pela qualidade, muito menos pelo bom gosto (a este respeito espreitem-se as varandas inacreditáveis da Urbanização “O Adro”, na fachada fronteira à R. Dr. Alberto Tavares de Castro; ou a infeliz e decadente praga da persiana -senhores: estamos no século XXI!?). Algo que os acabamentos, melhores ou piores, não escondem. As volumetrias, regulamentadas sem ter em conta o local específico, desrespeitam frequentemente a paisagem urbana e a vizinhança. A implantação é muitas vezes inacreditável (veja-se o belo exemplar que acompanha a descida para a Murta até à Travessa dos Bandeiras! Ou o neófito imaculado que afronta o tecido urbano nas proximidades da Igreja!). E a forma como se fazem dos acessos às garagens barreiras arquitectónicas que rompem com a continuidade e fluidez dos passeios e da cidade (ainda que tal seja permitido pela regulamentação (!?), o resultado é eticamente condenável).
Feito um breve diagnóstico estético, importa agora apurar responsabilidades.
E nesta linha de raciocínio indagar: quem desenha e projecta? Claro que a resposta é óbvia: desenhadores projectistas e/ou engenheiros civis. E podem estes ser responsabilizados pela dimensão estética do seu trabalho quando esta cai fora do âmbito da sua formação académica? Não!
Quem são então os responsáveis pela descaracterização e desqualificação da Cidade de Oliveira do Bairro?
São os agentes/promotores imobiliários e os cidadãos provincianos que sem sentido ético teimam em contratar desenhadores projectistas ou engenheiros civis para levarem a cabo projectos de arquitectura (!?).
Concidadãos: para fazer pastéis o dono de uma pastelaria contrata um pasteleiro, não um padeiro!
Nada me move contra a capacidade profissional de desenhadores ou engenheiros, a não ser que se pretendam substituir aos arquitectos. Segadães Tavares, “nobel” da engenharia, interveio na concepção da pala do Pavilhão de Portugal, mas a responsabilidade do arrojo estético do edifício é de Siza Vieira. O engenheiro é apenas e só co-responsável. Como me diz frequentemente um jovem e brilhante arquitecto (a responsabilidade do epíteto é minha), por detrás de um grande arquitecto está sempre um grande engenheiro, e vice-versa!
Senhores agentes/promotores imobiliários e concidadãos: prezo encarecidamente a iniciativa e a propriedade privadas. Prezo a economia de mercado e o objectivo do lucro. Não defendo a tentativa de o moralizar, porque um espírito lúcido sabe que o mercado não gera valores, mas advogo com vigor, isso sim, o “lucro ético”, aquele que advém do profissionalismo na prestação de um serviço óptimo, inovador, com qualidade, que não defrauda o consumidor e que não hipoteque o futuro da cidade em que vivo.

*Jornal da Bairrada (18.8.2004)