Oliveira do Bairro: Cidade e Futuro

Reflexões sobre o "estado da nação e da arte" oliveirenses

quarta-feira, setembro 22, 2004

A CIDADE QUE TEMOS E A CIDADE QUE QUEREMOS [4]*


“Noblesse oblige”. Ou seja, prometido é devido.
A forma como são geridos os condomínios oliveirenses, e não só estes, admita-se, está expressa na paisagem da nossa cidade. E o exame à fotografia que esta nos pode proporcionar é preocupante.
A grande maioria não tem sequer identificação fiscal. Tal não significa que estejam, de todo, à margem da lei. Mas é com toda a certeza sinónimo de uma certa ligeireza de processos que tem custos. Para todos nós. Para a cidade. Admito que mais por incúria ou ignorância. Tento compreender. Mas entendo que silenciar os seus efeitos é dar lugar à crónica de uma morte anunciada. E o que desejo é exactamente o contrário: que as notícias peregrinas desta morte se venham a revelar exageradas.
Os condóminos são cidadãos como os outros. Têm uma vida profissional activa, uma vida familiar absorvente. Como todos nós. E como a todos nós, depois um dia fatigante, custa-lhes gerir os condomínios como se supõe que gerem os seus negócios. De forma profissional. Arquivar documentos e organizar a contabilidade são tarefas que levam tempo. Tempo penoso, sobretudo para quem tem ainda que registar a sucessão de queixas dos vizinhos: são as paredes rachadas, os muros que tombam, o elevador que sistematicamente avaria, a humidade que pinta as paredes e deteriora o pavimento e os pedaços da fachada que caem na vida pública. Enfim, os problemas que derivam da qualidade construtiva a que temos tido acesso. E a tarefa torna-se ainda mais exasperante quando se tem de dar a cara junto do construtor, apresentar o rol de queixas e ignorar olimpicamente a sua deselegância.
Pagar a prestação mensal é já um sacrifício. Para quê contribuir também para o Fundo de Reserva que a lei impõe? Este fundo é um mecanismo de salvaguarda comum destinado a cobrir despesas emergentes e vitais como o são as que se prendem com a manutenção dos edifícios. E têm uma importância acrescida, por exemplo, quando um ou mais condóminos não podem ou não querem suportar a parte que lhes corresponde quando alguma obra se torna necessária. Quantos dos condomínios oliveirenses terão no seu fundo de reserva uma resposta pronta para qualquer eventualidade? E se a resposta for volumosa, porque se apresentam tantos dos nossos edifícios com a face semelhante à de um pugilista peso-pesado, no preciso momento em que termina o 12º assalto?
O problema pode ser considerado de gravidade quádrupla. Porquê? Fere a legalidade. Afecta e determina a saúde física dos imóveis. E porque uma gestão negligente coloca em causa a segurança dos cidadãos e desqualifica não só a estética do imóvel como da cidade.
Algumas destas implicações dir-se-iam mais profundas, já que escapam ao olho clínico do transeunte.
O que não escapa ao olhar do mais distraído, até porque de quando em vez põe em causa a sua integridade física é a degradação das fachadas da maioria dos edifícios mais antigos da cidade. Quem entra na cidade e recebe da antiga Pavimenta as boas-vindas sabe a que me refiro. E à medida que se sobe, em direcção ao centro da cidade, constata-se que a preocupação com a preservação e conservação dos edifícios desce vertiginosamente.
Reboco putrefacto, peças de revestimento em falta (veja-se o edifício onde funcionam os balcões da CGD), cores desmaiadas, aparelhos de ar condicionado, parabólicas, outras antenas de televisão, larga panóplia de materiais parcial ou totalmente deteriorados ou obsoletos (as sempiternas persianas…), tudo se conjuga numa admirável coerência estética, que a ferrugem ou um alumínio anacrónico, omnipresentes, unificam.
Cenário tétrico, diriam alguns, não fossem os “oásis” que resultam de construções bem recentes, ou o que se desenvolve ao redor do Jardim Padre Acúrcio, onde a cidade sofreu uma operação de cosmética saudável (a intervenção na fachada do Hotel Paraíso é merecedora de destaque). Estivesse a origem desta renovação no respeito nutrido por este prestimoso literato, e talvez fosse caso para desejar que o ditoso, esse sim, tivesse o dom da ubiquidade.
A problemática não se esgota nos condomínios. É antes uma bola de neve que aglutina moradias unifamiliares e terrenos consignantes com a via pública, onde silvados privados não dão lugar a jardins públicos.
Esta, em abono da verdade, é também uma questão nacional, como vincou Jorge Sampaio na “Única” de 4 de Setembro, a propósito da edição do livro “Onde Falham as Cidades”. Para o presidente, a participação dos cidadãos tem que se fazer “desde a casa e o condomínio até à praça em frente do prédio”.
É necessário consciencializarmo-nos de que os edifícios projectam a imagem das pessoas que os habitam ou utilizam. Neste sentido, a conservação das fachadas está para os edifícios como a higiene pessoal está para as pessoas. Os cuidados que lhes são emprestados são proporcionais à atitude cívica. Desprezar a fachada de um edifício é desrespeitar a cidade e os cidadãos e agredir a paisagem urbana a que todos temos direito. É este o legado que se deseja transmitir às gerações vindouras? É esta a imagem que queremos que venham a ter de nós?
Ao automóvel, que cada dia desvaloriza um pouco mais, não nos coibimos de prestar todas as atenções. A habitação é um bem imobiliário que em condições normais só tende a valorizar. Descuidá-la é todos os dias empobrecer um pouco. Perde o proprietário, o cidadão e a cidade.
No Alentejo são os próprios executivos municipais que impõem aos proprietários o tratamento frequente das fachadas dos imóveis. Por exigências de salubridade, mas também por motivos estéticos. Os benefícios estão à vista.
E nós? Precisaremos que nos imponham medidas que só nos favorecerão? Ou fá-lo-emos livremente?

* Jornal da Bairrada (22.9.2004)